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MULHERES INDÍGENAS E A MODA: UMA ROUPA NÃO VALE MAIS QUE A NOSSA PRÓPRIA VIDA.

A cidade de São Paulo é reconhecida como um dos maiores e mais importantes polos da indústria da moda na América Latina, e muito disso se deve às imigrações mais recentes na capital.


Entre as décadas de 1980 e 1990, a capital paulista iniciou seu processo de captação industrial de novos imigrantes e de novas estruturas econômicas, nesse período também iniciam as denúncias sobre a existência de vínculos entre as oficinas bolivianas e grandes redes nacionais e multinacionais de vestuário.


O aumento do consumo impõe padrões de competitividade em setores como o da costura, sustentado por processos de super exploração de mão-de-obra imigrante, constituída principalmente por mulheres indígenas bolivianas, vítimas dos efeitos perversos da globalização que acirra desigualdades regionais a nível mundial, impulsionando movimentos migratórios de massa nos países mais pobres.


Ainda que a atividade da costura seja fundamental para a indústria da moda, segue sendo uma de suas etapas menos valorizadas por fazer uso intensivo de mão-de-obra frequentemente terceirizada, ou até quarteirizada. Quando se fala em escravidão moderna na cadeia de moda, é sobre um sistema que escraviza e desvaloriza a vida de milhares de pessoas e famílias por um valor mínimo e até centavos por peça.


A costura ocupa a terceira posição entre as ocupações com maior número de mulheres resgatadas de condições análogas à escravidão na indústria da moda paulista, destas 93,1% são trabalhadoras imigrantes, principalmente latino-americanas.


O primeiro resgate nessa etapa da cadeia têxtil ocorreu em 2010, quando duas trabalhadoras bolivianas vieram para São Paulo em busca de melhores condições de vida e promessas de bons salários, no entanto, acabaram obrigadas a enfrentar um cotidiano de violações à dignidade humana, que incluía super exploração, condições degradantes, assédio e ameaças.


Em situações de crise econômica, mulheres sofrem mais com o desemprego por efeito da desigualdade de gênero, por isso, surge a necessidade de aceitar trabalhos mais precarizados e mal remunerados. Mas quando estão em situação de exploração, como no caso de trabalho escravo, questões relacionadas a gênero tornam essas mulheres ainda mais suscetíveis a outras violações.


E no caso das mulheres indígenas, as dificuldades de inserção no mercado de trabalho se devem também às questões raciais, etno culturais e socioeconômicas que vem desde o país de origem. Muitas dessas mulheres vêm de regiões extremamente pobres e sem possibilidades de mobilização social, migrar representa a busca de uma vida melhor para si e para os familiares que ficaram na terra natal, migrar é um direito.


A costura foi um dos meios de sobrevivência que muitas, assim como a minha mãe, encontraram ao atravessar a fronteira. Moda é sobre gente, então precisamos falar mais sobre as pessoas que estão por trás de cada processo.

Texto por Gabrielli Lecoña - Criativa indígena aymara. Apresentamos Gabi (como a chamamos carinhosamente), que compõe o nosso time de criação aqui na NALIMO. Ela é a principal assistente de estilo de Dayana Molina (diretora criativa da marca). Para nós, ter a Gabi em nosso time, é muito significativo. Acreditamos e potencializamos o seu talento. Queremos construir junto da Gabi e tantas outras mulheres que colaboram conosco, um futuro mais justo, digno e real. Lutamos juntas para que a moda seja um lugar seguro, acolhedor e empático para todes. Conheça mais sobre Gabi em suas redes sociais. Por lá, ela conta um pouco do seu processo quanto mulher indígena boliviana vivendo em São Paulo. Sigam @qantu.oficial. Gabi irá contribuir com muitos conteúdos incríveis por aqui. Fiquem de olho :)


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